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quarta-feira, 31 de julho de 2013

Três anos gemelares


Era noite.
A pontada estranha encaminhou-a para o hospital. Era de tal forma forte que nem mantinha direita. Curvava-se sobre si própria.

Disseram-lhe antes de partir para aquela viagem rápida de carro, que a vida que carregava podia ter terminado.

Estranhamente, sentiu-se quase aliviada. Tinha parado o dança-balança da escolha. Qual seria a melhor? A mais acertada? Parecia que a natureza se havia encarregue de a fazer sem pedir permissão a ninguém.

"Estou grávida. Dói-me aqui e se fizer pressão piora."

Foi prontamente atendida e ainda houve tempo para gracejos com o médico que já a conhecia de outras andanças.

"Ah, agora quer uma menina?"

"Não, não. É indiferente. Só não quero é que sejam gémeos. Não gosto e tenho o meu filho muito pequenino para ter gémeos."

Depois de conversarem sobre quais os rumos possíveis a tomar daí para a frente, ela deitou-se na marquesa e rapidamente no monitor, estavam visíveis aqueles que vieram mudar-lhe a vida e os planos.

Quis o destino dar-lhe uma lição. Daquelas que nunca mais se esquecem.

Depois de chamada grande parte da equipa médica daquela noite, confirmou-se o que menos queria.

Não estava grávida de um bebé. Estava de dois. Gémeos. Haviam-se aninhado dois filhos no ventre.

O filho mais velho não ia ter um irmão, ia ter dois.

Dois irmãos! Num espaço rápido, em jeito de furacão, passou a ter três filhos.

Ela riu, chorou, soluçou. Valeu-lhe o médico que a atendeu pela paciência que teve.

Tanto turbilhão que ainda hoje não consegue descrever. Sentia-se agridoce.

Não tinha ainda tomado a decisão que lhe colhia o sono.

De seguida, é dada outra notícia. Eram gémeos, mas no dia seguinte podiam não o ser mais.

A diferença de tamanhos era tremenda.

O sentimento de possível perda de um dos filhos, mesmo sendo só uma bolinha, trouxe-lhe a decisão.

Era para continuar. Continuou para sempre.

Chamou-lhes ervilhinho e rebentinho de soja.

Viveu no limbo até ter a confirmação que tudo estava bem com os filhos do ventre. A diferença de tamanhos sempre esteve presente.

Foram também chamados de Benjamim e Violeta. Irmãos de Henrique.

Filhos de seus pais Tiago e Sofia.

Há três anos que se confirmou o início daqueles a quem a mãe chama de ficha tripla e tríade.

E se lhe fosse dado o condão de voltar atrás repetiria tudo... Talvez chorasse mais. Mais lágrimas felizes.