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sábado, 22 de setembro de 2012

"Faz as malas! Fugimos hoje."





Passaram por tanta coisa juntos.
Privações. Provações. Partilhas de bom. Afastamentos dolorosos. Foram felizes um dia; vários dias.
Quando se conheceram, tinham o peito transbordante de esperança que a tal pessoa lhes fosse apresentada pela
 vida. Foi esse o propósito pelo qual essa coisa do destino decidiu presenteá-los um ao outro com as suas companhias.



Tiveram frutos desse presente. Retribuíram à vida a prenda com três vidas imensamente felizes. Vidas que ela carregou no ventre. Nasceram para serem pais.



Julgaram que o amor que os uniu se havia desfeito. Criaram muros e cortinas de ferro.
Decidiram que estava na altura de mudar, de deixar de vida a correr lá fora, sem que a deles fosse aproveitada e por isso, tomaram rumos diferentes.



Afinal, a mudança que urgia era apenas a interior. Era preciso não se terem para recordarem que se a vida os deu de presente um ao outro. Para que a importância que essa prenda tem lhes fosse uma epifânia.
Agora, chegam ao final de um ciclo. Daquele em que a mágoa é quase latente e que o lar que foram construindo em tristeza, com paredes frias, cabeças desarrumadas e corações confusos, se muda para um espaço com luz. A luz do que os uniu.



É chegada a hora de ecoar vezes sem fim que depois de tanta volta, reviravolta e revolta neste carrocel a felicidade se instalou.



Abraçam-se infintamente na eternidade que têm em comum, desejando não mais perder o que os muros e cortinas de ferro lhes colheram aos poucos.



Acordaram da dormência que tinham e juntos conseguiram ganhar batalhas umas atrás das outras porque, finalmente, as mãos se enlaçaram e os passos são dados no mesmo sentido.
Para trás ficam as paredes frias duma casa tão cheia de mágoa em cada pedaço, tão cheia de vida e ao mesmo tempo oca, o negro da cortina de ferro.



E à frente deles está o que constroem - a felicidade - porque não mais largarão as mãos um do outro. Porque mesmo em silêncio dizem em uníssono que se amam.
Reconquistaram-se. Reconquistaram tudo o que os uniu.



Lá atrás, mesmo atrás ficam as quedas que deram, o que choraram, o que os fez andar em espiral sobre si mesmos.
À frente, para a frente e sempre na frente está uma porta imensa de um novo lar com luz, com esta importância tremenda que dão um ao outro e com a certeza que quando passada essa porta, manter-se-ão o que querem ser: uma família feliz - eles e a sua tríade.



"Faz as malas! Fugimos hoje." 

terça-feira, 18 de setembro de 2012

A correria da corrida


Hoje, prestei atenção às pessoas com que me vou cruzando pelo caminho que faço. calmamente e sem pressa de nad aou para nada.

As pessoas correm para apanhar transportes. Correm para sair dos transportes. Correm para sair duns transportes e apanhar outros. Em alguns casos, parece que voam.

Correm e correm...

Muito correm. Magros, gordos, novos, velhos, grandes e pequenos. O que interessa é não se perderem no caminho.

Caso encontrem alguém conhecido pelo caminho, está traçado o final. Sair a correr.

Estamos, inclusivamente, numa altura em que tudo é a correr. Pagar contas a correr, brincar a correr, comer a correr, (sobre)viver a correr.

Fico aqui no meu cantinho. Eu que detesto correr... Não corro. Não ando ao sabor da maré, mas não corro.

Será que as pessoas não perceberam, ainda, que não é por correrem a vida não anda mais depressa? Que andemos nós a voar ou a rastejar, a vida tem o mesmo ritmo? O seu próprio ritmo.

Eu não corro. Eu não vôo. Eu não rastejo.

Eu vivo de acordo com o que se vai passando à minha volta e se perder os transportes, há sempre outro à minha espera, mesmo que seja preciso que eu espere primeiro.

Muito se perde na vida que passa a correr...