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sexta-feira, 13 de julho de 2012

Os raios do sol



Fui confrontada com a dura realidade das gravidezes e perdas de bebés quando engravidei pela primeira vez.

Era-me completamente desconhecida a quantidade de bebés que nunca o chegam a ser. A viagem fica-lhes pelo caminho.

As mães, essas hão-de ser sempre mães, porque a viagem delas não termina. Nunca termina.

Vejo, agora e diariamente, pessoas entristecidas pela perda de algo a que muitos chamam "coisas", por não serem ainda "nada".

Mas esse "nada" rapidamente se transforma num "tudo" para quem o carrega acoplado a si. Pelo tempo que for. É um nada a quem prontamente se começa a chamar de filho. Para quem se faz planos, se imagina vezes sem fim como será carregar nos braços e não no ventre... Imaginamos sem fim nem tecto como será ver o primeiro raio de sol em conjunto com aquele que é nosso filho...

É uma vida. É tudo.

Quando se descobriu que a minha gravidez era gemelar, disseram-me que o embrião mais pequeno, por ser tão pequeno, certamente não ia evoluir. Cheguei a escutar uma médica a chamar-me de estúpida por acreditar que sim, que iam ambos continuar a crescer.

Andei com o coração a palpitar mais do que o usual até ter a (quase) certeza que sim, que ambos estavam bem e iriam continuar comigo.

Ao mesmo tempo que soube que estava grávida de gémeos, soube que um dificilmente evoluiria. Se a primeira notícia foi um choque, a segunda ainda foi maior.

Ninguém se prepara ou espera ouvir uma coisa assim.

Parece quase contra-natura. Uma vida que está acabada de ser iniciada no ventre de sua mãe, parar aquela viagem... Muitos dizem que não faz sentido e no nosso âmago é isso mesmo que sentimos. Não faz sentido.

Mas as mães têm sempre razão e a mãe Natureza é soberana. A ela fará sentido. Nós, filhos, apenas podemos colocar em causa a autoridade desta mãe.

Poucas vezes se escutam informações sobre estas mães cujos filhos não chegam ao final da viagem. Cujos filhos não chegam a ver o primeiro rasgo de sol ao colo das mães.

Quantas vezes quis e quero abraçar as mães destes filhos... Para lhes dizer que o raio de sol, aquele que os filhos não puderam ver por eles mesmos é o laço que os irá unir para sempre.

E quantos raios de sol há quando abrimos a janela?

Raios de sol...

2 comentários:

ArtesFlordeLotus disse...

Lindo:) adorei, escreves muito muito bem e com sentimento, parabens!! Irradias luz!

Sofia disse...

Obrigada! ;)

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