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quinta-feira, 31 de maio de 2012

O hábito e a rotina do (meu) ciber espaço

Faz tempo que me habituei- creio que seja este o termo mais adequado - a falar mais com pessoas que não conheço fisicamente, do que com as que conheço.

Por um ponto simples. As que conheço fisicamente desertaram assim que fiquei em casa, com a primeira gravidez.

Assim, a minha opção foi atracar-me ao pc com unhas, dentes e todas as partes do corpo para pesquisar e saber se, eventualmente, mais pessoas existiriam na mesma situação do que eu.

Infelizmente, descobri que sim. Infelizmente, porque ninguém merece esse abandono sem razão válida. Chega quase a ser um estigma, este o da grávida esquecida pelos amigos.

Ao longo destes quase três anos, cruzei-me com tantas pessoas. Que aos poucos fazem parte de mim e do meu mundo. Que me têm em tanta estima e consideração como eu a elas. Acabamos por ser (quase) uma família. Virtual, mas família.

Descobri os fóruns, as internets e afins.

E o facebook!

De repente, começa a ser impossível mexer nele. Parece que ganhou vida própria e eu não lhe consigo fazer nada.

Deixei de conseguir "falar" com os tais amigos. Não consigo fazer nada de nada... Só uma coisita chamada "publicar ligações".

A aplicação tem a opção de colocar "gosto" nas publicações que são feitas e é uma pena que não haja a "não-gosto", porque seria a que eu escolheria, neste momento.

Tudo, fruto deste hábito e rotina de falar todos os dias com as mesmas pessoas, as MINHAS pessoas por lá. Pelo facebook...

E fico assim, neste silêncio do ciber espaço associado à página de que falo por tempo indeterminado. Não consigo comentar, "gostar" ou dizer as minhas estupidezes. Às tantas, alguém fartou-se das minhas coisices e catrapimba. É pena, se for esse o caso.

Raistapartissem, meu malfadado Facebook! E ao hábito e à rotina também...

quarta-feira, 30 de maio de 2012

A profissão mais gratificante do mundo

Corre de boca em boca que a profissão mais gratificante do mundo é ser mãe.

É o quê?!

Creio que deve ter sido um homem a definir isto ou alguém a almejar tremendamente a maternidade.

Vamos começar pela gravidez? Que gratificação há em vomitar desalmadamente, andar a ser picada com agulhas para fazer análises ao sangue com uma periodicidade curtinha? E quando chegamos aquela fase em que mais-parecemos-uns-pinguins-porque-parece-que-o-equílibrio-se-foi-e-não-há-mais-nenhuma-maneira-de-andar?

Parece que levamos em conta aquela música que passa no canal panda: "rabo de pato, pés de pinguim."

Chegadas a essa fase, entramos também naquela em que não há posição na cama e aqui pode ter-se em conta a conotação normal e a sexual.

Abençoadas aquelas que conseguem ter relações sexuais até ao fim. Para mim, era coisa a mais... Ora mexe o bebé, ora mexe o outro, depois mexe o pai e o meu cérebro entrava em curto circuito com tanta mexidela ao mesmo tempo.

Jasuse!

Para virar na cama é quase preciso contratar uma empresa de gruas... Ver os pés, epá, nem o umbigo via, quanto mais os pés.

Só me lembrava deles porque me doíam bastante por causa dos edemas. Ah e porque precisava deles para andar, claro está.

Depois vem o parto. Ai o parto...

Dores e mais dores, gritos e estamos à espera da melhor coisa do mundo a acontecer-nos. Quando damos por ela, algumas vezes, a melhor coisa do mundo passou-nos ao lado, tão rápido que parecia um tiro. E ficamos com aquela sensação de "afinal, onde é que está a melhor coisa do mundo?"

Ele há coisas...

Bebé nascido e lá vêm aquelas coisas de que ninguém fala. Já sabem a complicação que é e por isso, o desenrascanso impera, mesmo quando se diz o contrário.

A casa, que poderia estar sempre limpa e arrumada, começa a parecer um campo de batalha. O cabeleireiro que se tem, passa a ser a almofada, com tantas voltas que lá damos com a cabeça enfiada a ver se adormecemos. Mas nem sempre o cansaço pode ser combatido.

O que passa a ser combatido é o mau cheiro das fraldas. Oh-valha-ma-deus... Como é possível um pivete tão grande de rabecos tão fofinhos?

Cá em casa, como é em dose tripla, às vezes, parece que temos incenso de rabeco-sujeco...

Quando eles acordam com a fralda cheia de pui (nome carinhoso dado pelo meu filho mais velho), digo amorosamente que acordámos na m*rda. Ninguém gosta de acordar naquela coisa, mas dizem que ser mãe é a profissão mais gratificante do mundo.

Aliado a isto, começam as novas bandas sonoras. Choros e mais choros. Às vezes, os guinchos também aparecem e regra geral trazem os amigos gritos.

Assim se passam os dias... Entre dá-o-leite-vê-se-a-tempratura-é-boa-dá-a-sopa-não-ponhas-ainda-sal-dá-a-papa-também-chegámos-à-fruta-dá-fruta.

E com o passar do tempo, a banda sonora começa a mudar. Mantem-se a já existente, mas junta-se uma melodia nova. A dos risos e gargalhadas. E é aqui que parece que nos chega a melhor coisa do mundo. Esquecemos tudo o que está para trás e enchemo-nos daquelas-coisas-que-só-as mães-e-pais-sentem-com os-seus-filhos.

Mas aquele cheirinho do incenso de rabeco sujeco não escapuliu.

Aos pouquinhos, vamos acordando mais tarde e eles também. E passamos a ter mais um cabeleireiro. O nosso filho. Torna-se perito em mexer-nos no cabelo num ápice.

Dia após dia, vai aparecendo uma descoberta nova para filhos e pais. Chega-se à rotina e tudo flui melhor.

Mas aquele cheiro de rabeco-sujeco, chega a ser intragável e teima em não desaparecer.

Chega aquele dia em que ouvimos o nosso filho a chamar por nós quando acorda, vezes sem fim: "mãe, mãe, mãe" e quando lá chegamos com o peito cheio de coisas boas, escutamos a terminação da frase "mãe, papa!". Ficamos quase reduzidas e suplantadas à qualidade de sermos aquelas-pessoas-que-fazem-as-comidas-e-lhas-dão.

No meio de tanta coisa, ainda há aquele dia em que o pai olha para o filho estarrecido, quase em pânico a pensar que o filho havia comido chocolate e inocentemente pergunta:
"Filho, como tens os dedos cheios de chocolate?"
O filho, por sua vez, na sua maior inocência, responde:
"É cocó!"

Devo ter rido e chorado ao mesmo tempo com esta situação.

Ai a gratificação...

E a saga continua...

Começamos a ter o peito descaído. Quer dizer... O meu descaído não está, tem é uma submissão muito grande face à gravidade. De tal forma que tenho um mamilo a bater no joelho e outro no tronozelo.

Devo dizer que é do melhor que há para a auto-estima. Vivam as mamas!

Quando comprei casa, dizia sempre que precisava de um avental e nunca o cheguei a comprar. Certamente porque estava à espera do momento certo para ter um. Tal como deve ser com a virgindade.
É igual, a primeira vez é a mais difícil.

Não comprei avental, porque a gravidez dos gémeo foi tão fofinha que me deu um na barriga. Pois é, pois é! Comprar avental para quê, se tenho um permanente?

Já não era amiga de correr, agora, ainda menos. Senão, é ver-me com a lei da gravidade a pulular no peito e na pançola que anda para cima e para baixo a cada passo de corrida. Naaaa, definitivamente não é para mim. Já me chega ter o cabelo vermelho para dar nas vistas, não preciso de ter quase um sinal luminoso a apontar para mim.

Também temos a fase da partilha da comida. Tão fofinhos que eles são. Mastigam e depois partilham entre eles e pior que tudo... Partilham comigo.

Há alturas em que penso que eles devem julgar que são filhos de uma pássara.

Perdoai-os, meu Deus, que eles não sabem o que fazem e são puros.

Hoje, mantém-se a parte da posição. É preciso alguma ginástica para encontrar uma posição confortável em que não faça-barulho-na-cama-e-em-que-tanto-o-peito-como-o-belo-avental-desta-pançola-não-façam-constantemente-ploc-ploc-ou-chap-chap-dependendo-da-onomatopeia-que-preferirem.

Isto de ser mãe tem muito que se lhe diga, tanto que nunca mais saía daqui.

Ai eu!

Mais do que gratificante, é encantadora esta coisa de ser-se mãe, mesmo quando o perfume que patrocina isto tudo é aquele oriundo dos rabecos-sujecos.

São impagáveis todas as situações pelas quais passo com os meus filhos, em casa e fora dela.

Ser mãe não é uma profissão, é tão só ser-se o que tudo condensa a palavra mãe. Que tem gratificação, alegrias, gargalhadas, noites não dormidas, noites a sonhar como será a cara do nosso filho (saltei esta parte nos filhos todos), mas também tem uma preocupação constante e perpétua, aquela que nos faz querer que os nossos filhos estejam sempre bem.

E a certeza que faremos tudo para que eles estejam assim mesmo. Sempre bem.

terça-feira, 29 de maio de 2012

Este tic-tac arrebatador do relógio biológico

Quem nunca ouviu falar do relógio biológico?

Dizem os mais experientes que a dada altura da nossa vida, sabemos que queremos ser pais. Aparentemente, é aí que entra essa coisa do relógio biológico. Ao que parece, pelo que vamos escutando, ele é tramado, porque pára no tempo.

Parece que os ponteiros não giram mais. Ficam estagnados no "ser mãe".

Tenho três filhos, todos pequeninos. Bem pequeninos, por sinal.

Mas esta coisa do relógio biológico nunca me tinha chegado.

Aquele tic-tac que pára quando queremos ter um filho. Não o conhecia. Nenhuma das gravidezes foi planeada nem desejada.

Sabia, no entanto, desde pequenina que queria ser mãe. Quando me perguntavam o que queria ser quando fosse grande respondia sempre que queria ser mãe. Com o avançar do tempo, juntou-se o jornalismo e a fotografia, mas sempre mantendo o mãe quase como prioridade.

Andava tão atarefada com escola, trabalho, teatro, animações que não tinha namorado. Optei por não ter. Não me pareceu sensato que o tivesse, já que nem para mim tinha tempo. Assim, a parte do "mãe" foi ficando abafada. Guardada num cantinho meu.

Entretanto, tudo amainou e o tal namorado apareceu e com ele trouxe o reavivar da "mãe" que estava guardadinha.

Temos três filhos. Três filhos!!!

Não gostei nem um pedacinho de estar grávida, na primeira vez. Detestei. Mas sentir o meu filho a mexer-se dentro de mim, acaba por suplantar tudo. Era tão mexido e tenho umas saudades desmedidas de tê-lo assim, pequenino, a mexer-se...

Foi extremamente complicada a gravidez. Cheia de precalços, avanços e recuos. O parto foi pior ainda...

Mesmo depois de ter dito que não queria parir mais, fui bafejada com mais dois seres de luz. Os meus cerejas.

Gravidez calma e tranquila, dentro do possível. Um final complicado com internamento, risco de vida, pré-eclampsia, batimentos cardíacos border-line, taquicardia, picadas nos dedos para ver o nível de açúcar, depois de todas as refeições e outras coisas que tais...

O parto foi bem mais fácil que o anterior, mas tivemos uma situação bastante complicada para resolver que acabou por correr bem.

Está tudo bem. Todos estão bem. Estamos bem, dentro do que nos é ofertado, dadas as circunstâncias.

Chegou-me, há dias, aquele parar os ponteiros.

Não liguei, ao princípio... Que doideira.

Ainda pensei que talvez trocando as pilhas do relógio interior, solucionasse alguma coisa. Mas qual quê? Nem sei onde há pilhas para isto e o que não me faltam são pilhas. Pilhas de roupa! Pilhas de nervos! Pilhas de paciência! Pilhas de boa disposição! Pilhas de optismo! Enfim, pilhas e mais pilhas! E pilhas... De filhos!

Tennho três (!!!) filhos!

Não me parecia ser possível chegar a este estado, tendo já três filhos. Muito menos depois de tanta complicação.

A condição financeira (ou outra qualquer) é tudo menos favorável a ter-se mais um filho. Mais um? Podem ser mais dois, outra vez, que ali os mais ovários são experts em libertar mais do que um óvulo e parece que os espermatezóides do pai dos meus filhos são muito amiguinhos dos meus óvulos e não nadam para lá, voam!

Parou... O meu relógio biológico parou naquele tic-tac do "quero ter mais um filho".

Euromilhões, porque não me sais? Claro, não jogo. Tens razão.

Eu não percebo esta coisa... Estava eu tão quietinha no meu mundinho, com os meus ficha tripla e catrapimba! Lá vem o tal do relógio chatear-me a cabeça... A cabeça, as ideias e o âmago.

Será que ele não tem mais do que fazer ou melgar outras pessoas que ainda não tenham sido bafejadas com a maternidade?

Tendo conversar com ele, explicar-lhe que já tenho os meus ficha tripla, mas parece que pouco se importa com isso.

Estamos em luta, eu e o relógio. Ora, ora! Mas o que é isto? Quem manda em mim, ainda, sou eu. Não é cá um relógizeco-que-nem-sabia-que-era-tão-avassalador.

Raispartissem-o-meu-relógio-biológico... Mas gostava tanto de ter outro filho...

Sofia Maria Flausina, recompõe-te! Não há mais filhos para ti! Certo?

Entretanto, se encontrarem pilhas para este meu relógio, agradeço que tenham a bondade de me ajudar, porque já não o aguento mais...

terça-feira, 8 de maio de 2012

Esta coisa do engravidar


Descobrem-se posições melhores para engravidar, dias com maior propensão, comprimidos para ajudar a que a gravidez se concretiza, o diabo a quatro.

Chegam até as mais cepticas a falar com divindades, na esperança que as mesmas lhes concedam o pedido da maternidade.

Às páginas tantas, andamos a jogar como se fosse uma roleta, um tiro ao alvo. Sorte! Ou se tem ou não se tem.

Quando somos contempladas por essa sorte, parece que o mundo não nos cabe no peito e as palavras de alegria e medo são tantas que acabam por não conseguir sair de forma alguma. Condensa-se tudo num teste pequeno. Dissipou-se a vontade de engravidar. Damos as boas-vindas, com a voz trémula, a um novo mundo e uma nova vida. Mundo com mais cores, cheiros, emoções, sensações e preocupações.

Aquelas que não foram bafejadas pela sorte, começam a acreditar que são portadoras de algum problema. Esquecendo-se vezes sem fim que o problema pode ser só aquele - falta de sorte.

Durante a busca da maternidade, com tantas vezes não concedida, o sonho vai-se dissipando mais e mais. A força começa a fraquejar e quando alguém próximo engravida, chega mesmo quase a deitar tudo por terra, chegando a sensação do "porquê ela e não eu?".

Sorte! Tudo se resume a sorte.

Mas esta pode-se ir construindo dentro de nós. Acreditando, sempre, todos os dias. E quantas vezes, não damos por nós a ter coisas a acontecer quando quase desistimos delas? É a tal sorte que parecia perdida a dizer-nos que afinal, está connosco.

Esta coisa do engravidar tem tanto de desejo - muitas vezes - como de medo. Medo de falhar, cair, tropeçar, ficar rasgada durante a caminhada que tantas e muitas vezes foi desejada.

E não é que tudo se repete? Sorte e acreditar! São partes cruciais para que mesmo que venhamos a cair, tropeçar ou ficarmos rasgadas na viagem, consigamos olhar para o caminho que falta com o mesmo almejo que tínhamos quando tanto foi desejado.

Porém, mesmo com todos os medos e com a repetição do "não sei se sou capaz.", a certeza que nos cintila é que somos mesmo todas capazes e o caminho que fez até chegar onde estamos, seja ele qual for o ponto da viagem, foi feito da melhor forma que soubemos.

É como se fosse um comboio. Todas chegamos ao destino, ao mesmo tempo. Porém, um comboio é feito de várias carruagens e por isso, quando chegadas ao apeadeiro, há quem já esteja perto da entrada para o destino desejado e há quem tenha apanhado a última carruagem e por isso, precisa de andar um pouco mais até chegar ao ponto onde se encontram as que têm a porta diante as próprias.

Esta coisa do engravidar...

sexta-feira, 4 de maio de 2012

"Esta palavra saudade"

Por vezes, andamos em voltas e reviravoltas dentro de nós mesmos. As arrumações grandes, fazem-nos, intencionalmente, mergulhar nesse mundo. Naquele que nos faz lembrar tanta coisa. Boa e menos boa.

Separar a roupa que não serve mais aos meus cerejas, colocar a roupa que era do Henrique, para o Benjamim, vasculhar as gavetas todas, para encontrar espaço para a roupa nova e que lhes serve, lembra-me a gravidez.

Aquele vai-não-vai do início e rapidamente chego à parte em que eles eram quase só meus. Todos!

Só meus, porque só eu os sentia de maneira tão minha e intrinsecamente deles. E era tão bom. Sentir cada pontapé, cada mexidela. Tanto numa gravidez, como noutra, a dada altura, para que eu andasse, tinha que segurar na barriga, por baixo, para a amparar e assim conseguir aliviar um pouco o peso tremendo que havia.

Virar-me na cama, era quase impensável; estive várias vezes para contratar alguém com uma grua, para que eu me levantasse.

Até estas coisas, estes quase pequenos nadas, são só meus e deles. Estivemos acoplados dias e dias...

Estas saudades boas, de ficar a conversar para a barriga, fazer-lhes festas... Sentir um bebé mexer-se é mágico, sentir dois bebés é estrondoso.

"Esta palavra saudade, ai palavra amarga e doce, estrangulada na garganta." Ary dos Santos

Assim é a saudade: amarga e doce.

Hoje, continuamos todos unidos. Temos outro cordão umbilical. O dos afectos. É mágica a relação que tenho com os ficha tripla.

Eles são, eternamente, parte de mim. E eu, sê-lo-ei para eles, também?

Não sei, mas sei que um dia, se encherão de orgulho, brilho e magia de mim, pela mãe e pessoa que sou.