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quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Quando o Henrique nasceu...


Muitas pessoas me têem perguntado como foi o parto do Henrique. Desde a nossa ida à televisão, que as perguntas aumentaram.
Poucos familiares se preocuparam em saber o que aconteceu, apenas perguntavam se estávamos bem e como me sentia. Limitavam-se a dizer "isso passa"... Mas não passa!

Há coisas das quais não me recordo no meio das 21h em que estive em trabalho de parto. Outras há que estão tão vivas que me fazem tremer de pânico quando regresso ao hospital onde o meu filho nasceu...

Deixo-vos o que me lembro do parto:

"Ele tem os teus olhos"...!!!
Foi a primeira coisa que ouvi quando o Henrique nasceu.

Quarta feira, dia 17 de Fevereiro tive consulta de rotina, nada estava bem comigo, fui encaminhada para as urgências. Chegada às urgências, espero uma eternidade para me dizerem que vou ser internada. Pedi para vir até casa antes de ser internada, para vir comer alguma coisa e mimar os meus gatos. Assim fiz.

Regressei à maternidade às 22h50, o meu processo estava aberto, era apenas necessário entrar e fazer a ficha de internamento. Entretanto, a médica que me atendeu, percebe que as 40 semanas sem completam no dia seguinte (18 de Fevereiro) e decide que não vou ficar internada, vão começar a fazer a indução do parto.

Se eu não estava preparada para ficar internada, para me induzirem o parto então... Ía caíndo para o lado. Perguntaram-me assim "Tem alguma dúvida?" - "Tenho, sim. Só uma. O pai pode ficar comigo? Não quero ficar sem o pai."
Estranharam não ter perguntado nada sobre o procedimento da indução, mas não perguntei... Não valia a pena.

Fiz tudo o que me pediram e às 23h40, mais coisa menos coisa, começou a indução do parto.

Quando cheguei à sala da dilatação já tinha (ou só tinha) 2 dedos de dilatação e algumas contrações, liga soro aqui, tira sangue dali, "não pode beber liquidos nem comer nada", "não se pode mexer", "tem que ter cuidado com o ctg".
Assim fiquei um sem fim de tempo, com uma grávida ao meu lado que gemia imenso... Cheguei a comentar com o Tiago que a pessoa devia estar mesmo em sofrimento e que não sabia muito bem qual seria a minha reacção... (mal eu sabia o que me esperava...)

Às 5 da manhã intoduziram-me um comprimido via vaginal para acelerar, porque as contracções eram fortes mas nada de dilatar... Pouco tempo depois, vomitei...!
Às 14h, novo comprimido, porque a dilatação continuava na mesma e as contrações cada vez mais fortes...

Pedem ao Tiago para sair, porque me iam tirar novamente sangue... Quando a enfermeira saíu, desatei a chorar... Estava tão farta de estar ali sem que pudesse fazer nada para que o meu filho nascesse... Estava cansada, com sono, fome, muita sede, dores e não havia nada que pudesse fazer...

Então, toca de chorar até me fartar... Assim fiz... Chorei, tremi, pedi-lhe desculpas, mas já não aguentava mais estar assim...
O Tiago regressa, vê-me nos meus prantos, eu nem conseguia falar... Só dizia que não sabia o que fazer para que o Henrique nascesse...

Às 17h começo a tremer (com o nervoso) e não sei lá o que é que aconteceu que as águas rebentaram... Parecia um repuxo, sujei o chão e tudo! Isto quando é para ser, é à grande!

Uma hora depois, já não aguentava mesmo as dores... Vem uma alma caridosa que me pergunta "minha querida, quer levar a epidural?" - "Quero, sim, obrigada!"
Lá levei a dita epidural... Aliás, não levei a epidural, enfiaram-me o catéter, que saltou quando o liquido ia ser injectado. Não me doeu rigorisamente nada, doía-me sim, a enfermeira a empurrar as minhas pernas contra a minha barriga... Isso sim, doía imenso... E eu lá continuava a chorar.

Segunda tentativa para colocar o catéter e tudo indica que estava bem colocado e a epidural iria fazer efeito. "minha querida, já pode descansar. Tente dormir um pouco. daqui a 10m, 15m já não tem dores."
Acreditei piamente no que a anestesista me disse, tinha que acreditar... Disse ao Tiago que ia então acatar o conselho e descansar...

Acontece que passado os tais 10m, 15m em vez de deixar de sentir dor, começaram as contrações dolorosas... estupidamente dolorosas... indiscritivelmente dolorosas!!!
Pensei que se tivessem enganado no medicamento e em vez de me terem dado epidural tivessem dado mais alguma coisa para acelerar o processo, uma vez que estava há bastante tempo na sala de dilatação...

Com isto tudo, comecei a gritar como se não houvesse amanhã, o choro mantinha-se, mas agora acompanhado de gritos. Não quis saber se incomodei ou não alguém, se não me queriam ouvir, não quis saber de nada... Não podia comer, beber, mexer-me, nada... Então tinha que estravazar tudo aquilo como me sentia "melhor".

As enfermeiras reclamaram dos meus gritos, do que dizia (disse vezes em fim que não aguentava mais as dores) e eu reclamava por estarem a invadir o meu espaço sem serem chamadas...

Curioso que sempre que tocava à campainha não aparecia ninguém e depois de começar a gritar o que não faltava era pessoas a verem a dilatação...

Como me mexia muito e fazia muitas vezes xixis, deciciram colocar-me uma algália e uma fralda (!?!?!? - uma fralda?!)

Às 19h30 tinha só seis dedos...!!! Meu deus, seis dedos e já estava em tanto sofrimento, como seria quando chegasse aos 10?

Lá tive um momento iluminado e pedi ajuda a todas as minhas fadinhas, pedi ao Tiago para falar com as divindades em que acreditasse e pedisse para que o meu sofrimento não fosse prolongado por muito mais tempo, porque eu não estava mesmo a aguentar...
Não parava de tremer, julguei que me ia dar uma "coisa má" e que se isso acontecesse, teria que ser feita cesariana, algo que não queria de todo!!

Às 20h, começo a tremer ainda mais, as dores que eram estupidamente dolorosas eram agora indiscritíveis... E vem a tal vontade de fazer força. Segundo diz o Tiago, nesta altura, eu estava entre o pálido e o quase morto...

Estava com oito dedos de dilatação. "Tens que aguentar, não há nada que possamos fazer. Não podes fazer força" "Não posso o quê?! É incontrolável... Como é que não faço força?" "Não sei, tu é que tens que perceber" "Com certeza, então vou continuar a fazer força até ele nascer."

E assim fiz, força...! Muita força! Física, psicológica... Força!!!
Dez minutos depois tocamos novamente à campainha, para além de tremer, comecei a ver umas estrelinhas e estava com bastante dificuldade em respirar...
Pensei "desta vez levam-me para cesariana, devo estar com a tensão altíssima." Mas só pensei, não mediram a tensão. Agarrei no braço duma enfermeira (que deve ter uma negra nesta altura) e perguntei porque é que não me faziam nada... E porque é que faltava tanta parte "humana" naquele piso... Eu só queria que me ajudassem a atenuar a dor e me explicassem o que era melhor de fazer, porque sozinha, sem aulas de preparação para o parto e com um acompanhamento quase nulo não tinha muito onde me "agarrar" a não ser à vontade que o Tiago estivesse sempre comigo...
A dita enfermeira deve ter sido contagiada pelas minhas lágrimas e gritou "a grávida da cama 1 está em sofrimento, tragam a maca, vamos para a sala de partos"

Nunca fiquei tão feliz por não terem dito o meu nome para se referirem a mim... Eu era, naquele momento "a grávida da cama um"...!
Tive que passar da cama para a maca, que sofrimento...! Novamente ninguém me ajudou. "Acha que conseguimos ajudá-la com o peso que tem? É louca!!!" - "Louca sou eu em ter que contribuir todos os meses para que o seu ordenado de funcionária pública possa ser pago! Pode chamar alguém que me possa ajudar?"

Chamaram a anestesista, que me fez uma festa na cara e diz, "vai correr tudo bem, tens que acreditar que vai correr bem. Agora, pões uma perna aqui, outra ali e esperas que te levem para a sala de partos. "

Levaram-me para a sala, o Tiago também veio. Entretanto, dizem-me que a dose de epidural que me tinha sido dada não foi a correcta, foi diminuta e que não havia tempo para corrigir a situação. O parto ia acontecer "aqui e agora". Queriam que eu ficasse de lado, eu só queria ficar de barriga para cima... Ainda discutimos sobre a posição de lado ou para cima. "Eu é que sei como me sinto mais confortável. Quero estar de barriga para cima e assim vou ficar até ele nascer. Não é para vocês que a posição tem que ser favorável, é para mim. Eu é que sou a grávida!!!"

Com as reclamações, as contrações começaram a acalmar (faz-me muito bem reclamar) e as dores também.

De repente, começo a sentir a cabeça do Henrique a descer (ainda dentro de mim)... "Agarre-se às grades da cama e faça toda a força que tenha na próxima contração. Se for preciso, a meio da força, páre a respiração e volte a fazer força"
Assim fiz... Em apenas uma força, nasceu a cabeça do Henrique "NÃO FAÇA FORÇA!!!! O seu bebé tem o cordão enrolado ao pescoço."

Oh meu deus....!!! E agora? Agora, nada de chorar, nada de gritar e ter calma... Olhei para o Tiago que estava anormalmente angustiado... Ficámos assim alguns instantes "Já pode fazer força, como fez à pouco"
Assim fiz... Mais uma força e o Henrique nasceu!!!

"Ele tem os teus olhos!!!" O Tiago ficou extasiado com o filho, eu fiquei extasiada com o parar do sofrimento... Não tive capacidade de assumir que tinha acabado de ser mãe, só que já não tinha mais dores...

Levaram-no para dar banhoca, entretanto, pedem-me para fazer mais força para sair a placenta e teríamos sido todos felizes se tivessemos ficado por aqui.

Não me fizeram episiotomia, rasguei e ao que consta rasguei toda até ao períneo.
Enfiaram-me não sei quantas compressas para dentro do útero e fiquei uma hora a ser cosida, depois do Henrique nascer... O problema foi tirar as compressas que estavam dentro de mim...

Quando saí da sala de partos, perguntaram-me como me sentia "NÃO QUERO TER MAIS FILHOS!!!" Dizia isto repetidas vezes... Não sinto que tenha sido tratada da melhor forma, fiquei tanto tempo em indução que fui "apresentada" a quatro equipas de enfermagem diferentes...

Pedi para comer e beber água, estava mesmo estafada... Lá comi.

Entretanto, para que pudesse ser passada para o piso das mamãs e bebés tinham que ver os pontos. Quando me falaram em ver, nunca pensei que seria o que foi...!

Decidiram-me fazer-me um novo toque cerca de duas horas depois de ter sido cosida...

Doeu-me mais que o Henrique a nascer e que qualquer contração que tive...

Assim foi ou ficam resumidas 21h de trabalho de parto...

Li um artigo que dizia que a dor do parto trás para a mãe vários benifícios, sendo um deles a responsabilidade de tratar de um recém-nascido.

A mim, a dor do parto, tirou-me toda e qualquer magia, quando ao olhar para o meu filho a primeira vez não consegui perceber que ele tinha nascido, que estava tudo bem com ele... que tinha os olhos da mãe ou do pai... que afinal, tinha acabado de ser mãe...
A mim, a dor do parto, só fez com que não perceba porque é tão necessário que assim seja, tanto tempo e tanto sofrimento quando é possível contornar a situação...
A mim, a dor de parto, não "deixou" que conseguisse dizer "olá filho. está aqui a mãe e o pai", como queria ter feito...
A mim, a dor do parto, faz-me chorar por saber que não consegui usufruir dos primeiros instantes do meu filho...
A mim, a dor do parto, não me fez sentir corajosa nem forte... fez-me sentir pequenina... Onde ficou o "olá, filho"? foi engolido pela dor...
A mim, a dor do parto, faz com que não queira ter mais filhos...
A mim, a dor do parto, faz que continue a pedir desculpas ao meu filho por não ter conseguido dizer-lhe logo o quão lindo é... E que chore cada vez que ele chora... E queira estar sempre perto dele, para que sinta que ainda estamos "juntos".
A mim, a dor do parto, fez com que sentisse que o vínculo emocional que tinha com o Henrique enquanto grávida tivesse sido abalado e abafado...
A mim, não digam que a dor trás qualquer benifício, porque me retirou ou abafou aquilo que deveria ser um momento mágico e transformou num momento de alívio sem que existisse espaço para magia nenhuma!!

Para finalizar, não concordo com o povo quando diz "depois deles nascerem, compensa tudo"... Nada compensa e nunca compensará a falha que sinto para com o Henrique por não ter dito o nosso "olá, filho. está aqui o pai e a mãe!"
Chorei quando o Tiago voltou para perto de nós, disse-lhe como me sentia... "O parto não foi nada feliz... Não me sinto bem."
"Não foi feliz? Claro que foi feliz. Temos o nosso filho, foi mais que feliz."
É assim que quero acreditar... Que foi feliz porque temos o nosso filho, abafando então tudo o que a dor do parto "levou".

Foi feliz porque temos o nosso filho...

Foi feliz!